segunda-feira, 2 de maio de 2016

-

meu primeiro fracasso
se dá na infância triste,
em que tudo de mim desiste,
e me torno vão e escasso.

lágrimas no escuro despejadas,
estancamento em segredo,
"já vai cedo, rapaz, já vai cedo"
e as cartas nunca entregues, apaixonadas.

ladrão de minha infância,
tenha um pouco de empatia,
pois decepciono com a poesia,
tudo de mim - tenra irrelevância.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Oco

lamentavelmente,
todos moram distantes,

e eu mesmo me distancio
ao ver que não há solução.

nunca há solução
melhor do que meu medo,

mas também ele já não há.
quem sabe

não deva haver
muito para mim.

estou sem forças
já há muito tempo.

os cabeceios
contra a parede...

sucintos, coesos,
definham os objetivos;

agora pesadelos,
os sonhos se esvaem

e tenho receio
do bruto encerrar-se.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Absorção

engulo tuas formas
de imediato transpiro
desgosto

requintes de crueldade
brotam de mim farpas
alvoroço

reflexões sobre a parede
faces de escuridão se chocam
se ocultam

desaparecem em mim
em minha face exponho a luta
se afastam

engulo e vomito e engulo
o que disseram ainda está
guardado

o sacrifício unilateral
entre mim e ti
derradeiro esquecimento

quinta-feira, 21 de abril de 2016

-

Estou triste, pois escrevo versos horríveis.
Sempre me senti herdeiro dos sensíveis,
e os poemas do Lord, do Keats, do Augusto e Azevedo
sempre me deixaram literariamente embriagado...

O que fiz para receber a coroa de rosas?
Estou triste, pois a volúpia e o desprazer
caminham de mãos dadas pelo meu vale,
suicida e deveras ensimesmado.

A palidez retorna à face desprendida de mistérios,
Eles se orgulhariam de mim, mas, ainda assim,
estou triste... pois encaro meus versos com adultérios.

O novo. Esbarrento. Caduca. Eterniza o esvaziamento.
Alguns se salvam, é verdade, quando digerem 
tudo o que foi, o que é e jamais será sentimento.

Limite

a fissura em meu peito
se agita e grita

palavras de real intensidade,
que só servirão para o ócio.

voltarei ao limite,
onde meus desafetos incitam

a minha decepção.
sou a decepção, penso,

pois a fenda em meu peito
profundo afunda a mágoa

de lutar contra os aromas
sangrentos de meu corpo.

dia a dia, com a cabeça
nos joelhos ralados,

choro a cratera que ainda
se rompe em milhares

de medos e pesadelos
da cabeça que

atira, mas não grita.
e a redoma em que se assoma

o caráter lúgubre e sôfrego
somente enverga sorrisos

de finalidade, de completude...
a cama por fazer, o ventilador ligado

a tigela inacabada em cima da mesa,
a torneira gotejante...

sinais de desamparo, descaso
e tremendo esquecimento.

abandono; parte de seus irmãos
e pais nas lágrimas passadistas

já não é. o mundo gira,
a mágoa retorna...

e o peito não suporta
essa intrínseca aridez.



domingo, 17 de abril de 2016

Ponto

Ó coração! Penoso é teu sofrimento.
Caíste num oceano sem fundo,
e, solitário corpo imundo,
poluíste as águas com teu pensamento.

Não! Estive errado, pensei errado.
Condena-me! (e sempre me condenas)
Não à arte que tu concatenas!
Não ao poeta apaixonado!

As lágrimas nada mais exerceram
que seu próprio e único trabalho:
fizeram de mim seu retalho!
e assim, me regaram e, enfim, escorreram.

Ó coração! Rápido seja teu falecer!
Pois na vida só há duas certezas:
terei sempre por perto as tristezas,
e quero mais do que tudo morrer!

Contraponto

Ó coração! Breve seja teu esvaziamento!
Que as ondas de um oceano sem espuma
seja um eterno recomeço ao pensamento
e uma eterna e vaga memória à bruma,
que tanto condensou teu sofrimento!

Não! Não te esvazies! Não perpetues
a dor que se instala nesse vazio desmedido.
Encontra um amor, faz com que atenues
a imensidão em que te encontras perdido.
Ó coração, luto para que um dia te cures!

Que as lágrimas que choraste escorram
pela face que se oculta, e que adoro...
E que teus impulsos ainda corram,
controlados e teus, por ti, pois ainda choro...
e chorarei até que tuas tristezas morram.

Ó coração! Breve seja teu desfalecer!
Que as coisas findas e lindas se tornem tu,
mas que eternize o esvaziar e preencher
como forma única de estar só e nu:
antes, que tu queiras sempre viver!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

-

Se eu te dissesse, à luz que afaga,
as coisas lindas - que ninguém nunca disse,
os lábios se uniriam, fariam com que existisse
a profunda ideia de uma ideia vaga.

Se eu te dissesse, mas se dissesse somente,
como seria nosso sonho... nossa prece?
Se eu te dissesse, e só dissesse,
como verias o que acontece em minha mente?

Se eu te dissesse que penso em ti
na desventura e na felicidade...
muito mais na melancolia das horas, é verdade,
pois com tudo que de ti proveio sempre sorri.

Se eu te dissesse, em teu vítreo olhar,
que ainda coro por ti, que escrevo a ti a poesia
dos amores e alegrias... jamais me esqueceria
de teu simples e sincero desfolhar.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Irritante

Inquietante, estranhamente suportável,
por meio de sons guturais, faz sua reclusão.
Estranho, porém familiar, ali, inegável,
se esconde a luz... e a depressão.

Familiar e construída em seio insustentável,
a escuridão alumia seres de todo escalão.
O outro, solitário, é o eu impenetrável
por toda e qualquer dialogação. 

O outro, que nada entende, julga o eu
carente de toda e qualquer atenção.
Mas muito sabe quem já se fodeu

que a angústia é mais densa e profunda,
o anseio, o rancor e o sofrimento são do eu,
e cada um deve cuidar, só, da sua bunda.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

-

A poesia vulgar da criança ciumenta,
a compra terrível de desgosto,
o rei de outrora agora deposto
e tu a sorrir o que o choro alenta.

O beijo que ninguém conhece,
o silêncio da trepidez,
o compêndio de minha vez,
de amar o que me desconhece

são gestos de perpetuar uma irrealidade,
o fantástico, o romantismo
e as duras travessuras do realismo,
que, de mentira, só tem verdade.

Aqui, sento esperando as lágrimas engolirem o que choram,
condenando-nos, coroando-nos de rosas,
que surgem após memórias vaporosas...
Mas, ao escrever-te, instalo amor às maçãs que ainda por ti coram.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O duplo

Logo, despetalarei. É outono.
Eu sou o duplo, mas não tenho crédito.
E, por ser ambíguo, vou criando versinhos
aqui, isolado na eloquente calmaria
de minhas quatro paredes brancas
e no desconforto de minha cama esverdeada
- repleta de um silêncio doentio,
que transcende a escuta e traz paz e caos
ao interior do solitário quarto em que estou.

Apenas uma almofada velha e um pequeno lençol de solteiro
me acompanham nesta noite fria,
após um dia calorento e estressante.
Não há porta neste pequeno quarto arranjado.
Uma cortina me separa do mundo, mas ainda ouço
os passos dos enfermeiros indo para lá e para cá
e seus cochichos ilegíveis a invadir a essência
de minha dedução.

Um deles me furou, e os potinhos logo
se preencheram com meu sangue roto.
Retirado, feita uma lavagem.
O carvão ativado começa a surtir efeito.
Sinto a sucção extrair os comprimidos
que, momentos antes, engolira num impulso.

É outono, e as folhas rejeitam os galhos;
as pétalas se desfazem das sépalas e receptáculo.
Um enfermeiro está aqui, de costas.
Ele me pergunta coisas sobre a vida,
como se houvesse vida em mim.
E eu respondo, preguiçoso, com um breve "hum".
Pois minha ferida é incompreensível ao seu entendimento.
Meu vazio é demasiado vazio para alguém repleto
e são.

A brancura das paredes desbota em meu próprio âmago.
Estou desfalecido, incurável, fraco, adoecido.

Até então, não havia percebido a presença de uma moça
à minha esquerda, chorando.
Não sei quem é.
Permanece calada em suas lágrimas, com o rosto apoiado nas mãos.
Não consigo conversar com ela,
não tenho palavras suficientes para tal.
Não tenho eloquência, tudo parece derradeiro.

As pétalas se desprendem aos poucos, porém se desprendem.
É outono, e não conheço quem chora por mim,
assim como não me conhecem, pois me oculto e me ocultei,
cultuo e cultuei a introspecção.
Pétalas que outrora resplandeciam o viver,
a felicidade e, quiçá, o amor,
agora se sujeitam ao finalizar-se.

A cortina se abre, e lá está minha família.
Todos chorando, com pesar e angústia em seus olhos
lacrimosos, como os meus - a essa altura.
Num abraço coletivo, cogito: eles me amam?
Eles me amam.
Apesar de ser quem sou, apesar de ser uma mente doente
numa carcaça fétida, eles me amam!

Meu coração despedaçado pulsa,
meus dedos tremem e os olhos se encerram.
Não há alegria ainda, porém, talvez, um novo começo.
Não sei o que se sucederá daqui.
O que tenho é uma certeza:
Não tenho crédito, portanto não tenho vontade de viver.
O que me move é o mundo, pois não posso me mover sozinho.
Ainda estou na cama esverdeada e, provavelmente, ficarei aqui por um tempo.
Quero dizer que, apesar de tudo, ainda sou.
Eu sou o duplo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

E tudo que se foi permanece ido

Desistimos de comentar sobre o problema.
E tudo que se foi permanece ido...

Os laços desenlaçados,
os abraços
não abraçados...

Desistimos de nos arrepender por tudo.
E tudo que se foi permanece sem ter sido.

Canto a canção do desperdício.
Nasci num asilo, 
morri num berço de pétalas.

A leitura que fizemos dos acontecimentos passados nunca foi feita.
Nunca existimos, senão numa invenção - que não houve.

O olhar que olhas para outro é meu.
O olhar que chora pouco a pouco é nosso.
E, embora estejamos distantes, ainda te amo.

Porém, desistimos de comentar sobre o problema,
e agora caminhamos ao desencontro
em pontos distintos, que não sei onde estão.

E tudo que se foi permanece ido.
E tudo que não foi permanece sem ter sido.

domingo, 3 de abril de 2016

para que nunca mais precisasse

não ligo muito para isso
ou aquilo
o que sou é o que sinto
e se fosse especial
sentiria
tanto
mas tanto
que nada sentiria.

não ligo tanto para o muito
do pouco
que tive
fez-se riso
da dor, fez-se o riso, diria.

não ligo para ele
pois o pranto
é mais
verdadeiro
o riso vem, se cala
e é manhã
nas brumas
de meus
mais contrariados
pensamentos.

porém, na noite
quando se encerra
a melancolia
e se estende
o amor
penso, e apenas penso
que nada é mais triste
do que só pensar.

e se pudesse escrever
escreveria o quanto pudesse
para que nunca mais
precisasse
escrever
merda alguma.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

se não tenho medo, por que tens medo

se não tenho medo, por que tens medo
de que teus dias desfaleçam à luz da ira?
vês teus olhos entreabertos no espelho 
do Nada, na tragédia do encerrar-se...

se não tenho ira, por que estás irada?
aproveita a morte e a vida!
pois eu, que tanto e sempre vaguei 
pela penumbra do inconsciente,

que tanto sonhei - e sonhei somente,
não tenho tempo para realidades disfóricas.
quando penso que tão pouco vivi,
tão logo me entrego ao devaneio.

pés no chão? só se for para amar-te
sem orgulho ou fantasia, sem ideal 
ou poeira de versos que desejei cantar,
mas não cantei, porque imergi,

sumi e, enfim, voei! para me cansar
e me entregar aos trabalhos da surpresa,
da expectativa frustrada, muito mais morta
e viva do que imaginamos. 

e o amor, que nada tem a ver com o percurso
que trilhei sozinho; que nada tem a dizer
em um poema alegremente triste,
solitário, emana de minhas entranhas.

se não tenho medo, por que tens medo
da escuridão dos olhos vendados pela paixão?
receias, confundes e não concatenas
a melodia que soa - sem que escutes ou identifiques.

não nos matemos esta noite, porquanto a angústia
e o pavor do desconhecido ainda nos afligirá, 
e nos guiará rumo ao coração das estrelas 
pintadas por mãos nuas e findas.

e quando sinto que hei de te perder
para um esquecimento insalubre e consciente,
a mágoa se instaura no peito, que se enche de lágrimas
da cor do desejo da névoa que habita seres desencontrados.

portanto, não nos dispersemos. se não me dispersar, prometes
que não irás embora? preciso de tua companhia de escuta.
preciso dizer que preciso dizer que te amo,
- mas não amo, porque não sei amar ainda um amor de partida.

sexta-feira, 25 de março de 2016

-

Ele soava invisível
aos que transitavam sem passar
pelo irresistível resistível,
que entendia sem entender

o prazer na angústia,
recuo inesperado,
porém seco,
em uma plenitude 
vazia
de uma existência inexistente.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Aplauso

Pelo véu das retinas cansadas,
por toda alegria expressa 
na face que canta, que traduz e ilumina...

me quer? Não me quer, 
pois a felicidade, que se esgota
em seus súbitos espasmos,
é mentirosa.

Conheço a entranha das palavras.
Não as que se aplaudem - dos saraus
aos maiores espetáculos.

O grande espetáculo
é, igualmente, uma farsa;
indubitavelmente mentiroso
e formador de passividade.

Conheço a profundeza do que surge
assim, de repente, das pequenas coisas
codificadas pelo marulhar excessivo da mente...

E o aplauso, simplesmente aplauso, 
faz com que me entristeça,
com que rechace minha própria criação.
"Viva a vaia!" Viva!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Verso intransitivo

Solidão, poema solitário.
Verso intransitivo, verso adagiário.
Lúgubre e tediosa, despeja mágoas
sobre quem ama,
e triste, triste como uma paixão que inflama,
o universo marulha em suas águas.

Solilóquios inertes e atordoantes.
Palavra ascendente, não como antes.
Histeria dolorosa, sincera e invejável,
ócio sobre quem canta,
despeja tua miséria, tristeza e ódio na garganta!...

despeja a dor da necessidade lastimável.

terça-feira, 15 de março de 2016

poema

o abismo nos olhos de escuridão,
a fome e miséria no ardor do azar
(de ter nascido - e não existido, senão
no seio da histeria, da dor e do pesar).

seres, monstros, ogros... e o homem-mau
cantam a agonia da pureza impura
(que se estende sobre os versos da nau,
que naufraga e ainda se vai... sem cura).

e a luz que busca em seu rosto,
o que já se foi, o que foi deposto
há de extrair a ínfima parte dela.

e a melancolia da qual bebem os esquecidos
é a fonte de despedida dos adoecidos,
que também se vão, no aceno da última triste parcela.

sábado, 12 de março de 2016

Une saison en enfer

tilintam os ossos em meio à penumbra.
risos cessam, a noite retumba!
horror expresso nas faces cemiteriais
dos burlescos! loucos e bobos... arlequinais!

oh! là là!

como eu versasse a um miserável a obra rimbaudiana,
versos rotos comentaria, e se perderia na tormenta diluviana.
o não-vivo permanece por detrás das agonias.
são os burlescos! loucos e bobos... atrás de um messias.

avant-garde!

"crê, crê, crê", urram os esqueletos!
em nome de um folhetim, de um livreto!
que ocultam em infames e Medianos pensamentos
para não terem que lidar com a mudança, o momento.

injustice!

os bons serão abençoados com a coroa de rosas.
"coroai-me de rosas!" - breves, salvas e charmosas.
o restante é aberração: tediosa, pecaminosa: solidão,
que corrói! "corroei-me de esterco, vermes, putrefação!"

prosélitisme! 

como versassem aos burlescos, loucos e bobos,
os cretinos se dizem superiores! filhos do Globo!
mas bem sabem que, no fundo, tudo é uma esperança
de ascender, se imortalizar... um sonho de criança!

silence!

psiu! não falemos sobre o abuso e o retrogradismo artesianos!
afinal, a morte é divina! - mas nós, apenas humanos!
e se empurram, correm e fogem como animais de rebanho
que se reduzem, se espremem e diminuem de tamanho!

voilà

já chegaram ao pé da cova, e o dia raia sem cessar.
por hoje, chega desta festança que insiste em maltratar
quem não tem a ver com a crendice dessas almas em desertos,
tão tristes, tão desiludidos... que precisam de crendeireces - ou dejetos!

domingo, 6 de março de 2016

Erlkönig

O pai caminha lento, cismando,
enquanto o filho, admirado,
caminha pesaroso, cantando
para ele, triste e descuidado.

A neblina se estende pela relva à frente;
e o filho aperta o passo num regresso ao lar,
pois percebe o pai triste, quase doente:
"a escuridão e o pesar ainda vão te matar."

"Deixa disso, dileto, vem comigo!
À capela estamos quase chegando."
"Iria, mas sou mais que um filho, sou amigo,
e não deixaria tu aí: o sofrimento esperando.

Ouviste?! O que foi esse estalido?"
"Deve ter sido um animalzinho qualquer."
"Pai, precisamos ir! Sinto próximo o perigo!
Não quero estar aqui quando o Erlkönig vier!

"Não existe tal criatura! E não preciso de tua companhia
se não quiser ser companheiro."
Então, o menino corre à penumbra, sem tristeza ou alegria,
rumo aos braços do salgueiro. 

E as flores e folhas na relva satirizam
o vazio que encontra em seu abraço,
e chora o salgueiro, os braços se eclipsam,
pois o garoto já está morto em seu regaço.