segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Releitura

Com certeza é o mesmo lugar. As fotografias em sépia, os retratos de minha infância desbotando em um amarelo encardido. Os umbrais... todos decorados com róseas rosáceas que minha mãe mesma bordava. As maçanetas de prata líquida e evasiva. A grande sala, nem tão grande assim, trabalhada em madeira e tinta branca, branda e espumosa. E o meu quarto... ah, quartinho desagradável. Nessa época ainda dividia com meu irmão quase todas as coisas. Das roupas que não serviam mais em nós aos raros espaços em que podíamos desfrutar de algum lazer. Havia uma televisão velha que, depois de anos em péssimo funcionamento, foi substituída por outra, mais nova, que, raramente, era ligada. As peças de roupa se amontoavam em cima do rádio e escrivaninha... os livros tomavam conta dos armários e de minha mente.
E lá estava eu, solitário, apático e franzino, pensando em minha vida e na falsa ilusão de estar sozinho. É que me sentia um tanto abandonado, pois passava a maior parte do meu tempo isolado em meu quarto, na infinda escuridão que assolava aquele aposento. Meus amigos eram os livros e músicas que tocavam em meu computador. Eram palavras e letras travessas, todavia, por serem o motivo maior de minha depressão.
Com certeza é o mesmo lugar, mas acho que eu acabei cedendo aos trabalhos do tempo. Agora vejo com clareza que nem tudo que vejo é real. E nem tudo que sinto é real. Porém, sinto muito... sinto tanto e com tanta intensidade que um fio caindo de minha cabeça torna-se a maior e mais dolorida tortura para mim. Aprendi que o que codificamos e interpretamos é mero serviço do inconsciente misturado com o consciente e um pouco de realidade. Mas, se há toda essa “lenga-lenga”, como confiar no que interpretamos?
Até então, a saudade de algo que não havia vivido ou pensado e a falsa solidão que tanto sentia eram materializadas no plano real pela falta de pessoas a meu lado. Mas ainda tinha a mim mesmo... e, depois de alguns meses, em elevada discordância comigo mesmo, tinha Alice também.
Não era nova, devia ter lá pelos seus quarenta anos... também não era a mais bonita. Tinha os olhos meio juntos, melenas alisadas e douradas; e os olhos mais cerúleos que vira até então. Porém, tudo de que me lembro eram seus passos vindo até meu quarto durante noites de ócio, noites em que estava, de fato, sozinho em casa. Eram sutis, porém estridentes. Eram passos que me davam angústia... talvez por estar me apaixonando e me entregando cada vez mais, fatigado por todo o jogo do amor e suas terríveis consequências.

 Sem proferir uma palavra sequer, apagava as luzes, abraçava-a e derrubava-a em minha cama. Logo, estava de frente com sua calcinha de babados negros... para me perder, finalmente, nas sombras e colinas de seu corpo; na amantíssima tristeza da noite.

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