terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Um amor aprisionado

Os espectros da noite não me amedrontam.
A temerosa dilaceração do coração também já não importa.
Os uivos, latidos e balidos de meus colegas de cela são uma sinfonia para minha surdez.
E, aqui, tudo que se vê é a podridão de meus olhos castanhos.

Deitado em meus trapos e lixo, somente vejo aquelas pudicas putinhas de treze ou quatorze anos
devaneando seus primeiros e precoces desejos sexuais.
Vejo os santos cafajestes, todos iguais, à espera de sua primeira boa foda...

Nenhum deles escapa de meus olhos pérfidos de poeta maldito.

E me rio. Chego a me mijar de tanto rir!

Os uivos ficam mais altos,
Os latidos se tornam insuportáveis
Os balidos se impulsionam contra mim.

Mas nada é capaz de me atingir.
   
                                                        Não ainda.

Vejo, daqui da cama, pela merda daquela fresta, que jorra claridade em minha entrevada e oculta face, a podridão de meus olhos castanhos refletida em espelhos encardidos, embaçados, empoeirados.
As crianças de outrora se fodem sem escrúpulos.
O tino se foi faz tempo. A jovialidade imergiu em perdição.
E eu, anacrônico, somente quedo observando o que sempre previ.

Deitado nos meus trapos e lixo, vejo meus colegas de cela dormirem.
Ainda não os sufoquei em seus sonos pesados, pois preciso de suas companhias.
Preciso me sentir elevado, egocêntrico, melhorado... e somente filhos da puta como esses podem me proporcionar tamanha característica de meu eu.

Se fosse rico não estaria aqui. Estaria fodendo como aquela pirralhada, fora deste muquifo.
Estaria dormindo numa cama, com uma puta ou duas. Estaria escrevendo poemas para alguma mulher de algum lugar qualquer.
Mas, enquanto a grana não chega e somente tenho esta maldita fresta para olhá-los, posso imaginar como seria sufocar pelo menos uma daquelas crianças metidinhas.

E, para mim, essa seria a forma mais sincera de um amor aprisionado.

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